No compasso do tempo

(Por Pe. Amauri Ferreira)

Diante dos apelos publicitários, das vitrines coloridas, dos compromissos inadiáveis, das intermináveis listas de compras, do movimento nas ruas, as pessoas se entreolham surpresas e exclamam: estamos chegando ao final de mais um ano! Como? Ainda „ontem? estávamos fazendo planos e apostando na magia de seus dias que, certamente, viriam para atender a todas as nossas necessidades e a realização de muitos desejos que, lá no fundo, esperávamos ver concretizados. Trocamos, até mesmo, juras de amor! Dissemos que faríamos dele um ano muito feliz. Ele, por sua vez, se mostrava disposto a nos dar a paz de que precisávamos, a alegria há muito esquecida, a luz para caminharmos sem sobressaltos, o amor para que vivêssemos enternecidos. Agora nos trai a todos e acena como um viajante cansado que, desistindo de caminhar, abandona seus companheiros preferindo entregar-se nos braços do passado. Como é possível? Passou sem que conseguíssemos vê-lo, senti-lo, vivê-lo... sem que pudéssemos ao menos sonhar adormecidos em seus braços.

Utopia prendê-lo mais tempo conosco! Assim como utópico seria abreviá-lo ainda mais. É preciso entendê-lo não como alguém que nos traiu, mas apenas como um pedaço de tempo, um retalho de vida, artesanalmente alinhavado pelas agulhas do cotidiano. Nele experimentamos situações não tão amistosas, que transpassaram nosso corpo e feriram nossa alma. Dele também emergiram acontecimentos marcantes, saborosos e inesquecíveis. Não sejamos ingratos! O ano que se despede cumpriu a sua missão. Mesmo sem que percebêssemos a sua presença, ele nos pegou pelas mãos, inserindo-nos na „grande colcha? cuja beleza se revela na costura de fragmentos, feitos de tecidos diferentes, harmonicamente trabalhados para dar unidade à história.

Também não podemos acusá-lo de distrair-nos como um pássaro veloz que, cruzando os céus, foge aos nossos olhos sem nos dar contas do destino que tomou. Não! Não há razão para acharmos que o tempo acelerou o compasso de seu caminhar. A Terra continua girando, como roda-gigante, em torno de si mesma e os dias obedecem, como súditos fiéis, ao seu ritmo. Ao longo de trezentos e sessenta e cinco auroras, ela bailou delicadamente e, com invejável precisão, se deixou seduzir sob os olhos brilhantes e apaixonados do sol que sempre a cortejou, ardentemente. Contemplando esse indescritível espetáculo, quem ousaria alterar os calendários? Que decreto teria o poder de encurtar a divina ciranda que a fez próxima e, por vezes, distante do calor e da luz de seu amado? Quem sabotaria os doze suaves compassos que regem os ponteiros da vida? Quem destruiria o sabor das quatro estações gestadas desse encantamento?

Não! Um dia haveremos de ser justos com o tempo! Não foi ele quem nos abandonou! Nós o atraiçoamos... Como crianças birrentas, reclamávamos da sua lentidão e ousávamos pensar que poderíamos correr à sua frente, até que dele nos perdemos. Quando, amedrontados, nos surpreendemos, vagando sem rumo, já havíamos sido aliciados pela pressa. Hoje, não nos resta senão absolvê-lo e dele nos reaproximarmos, retornando à cadência dos seus passos; humildemente, confessarmos e assumirmos: não é a „pressa? do tempo que nos impede de sentir e viver as maravilhas que encontramos no chão de nossa existência. Ao contrário, é a indiferença pelo tempo e nosso fascínio pela pressa que vêm a cada dia denunciando o descompasso de nossas vidas.

Na verdade, o tempo se tornou um serviçal de nossas pressas e delas nos tornamos dóceis escravos. A pressa, e não o tempo, nos impede de sorrir, de saborear a comida, de brincar com as crianças, de sermos também crianças, de olharmos nos olhos dos outros, de reconhecermos a beleza do alvorecer, de conhecermos melhor a nós mesmos, de viajarmos pelo interior da alma, de enxugarmos as lágrimas que deslizam na face do próximo, de estendermos os braços exibindo o coração na palma de nossas mãos solidárias, de não fazermos nada para podermos pensar em tudo - em muitos -, de atendermos a voz do silêncio que nos convida ao diálogo sagrado, de enxergar a luz que vem do presépio, de tentarmos outra vez, de sentirmos, de sonharmos, de servirmos, de amarmos...

Quem sabe possamos nos despedir sem rancores e mágoas do ano que parte com destino à nossa memória! Se nesse momento, lágrimas brotarem em nossos olhos chorando a sua ausência ou, talvez, a ausência dos pedaços de nós que com ele partiram, não busquemos refúgio na tristeza, mas alegremo-nos. Precisamos sorrir com esperança, aprendendo a conviver com aquele que vem para ajudar-nos a percorrer mais uma etapa da longa estrada. E, se quisermos desejá-lo mais amigo que todos os outros, deixemos de ser cativos da pressa e nos entreguemos, tão somente, ao tempo que o novo ano irá nos permitir saborear. Celebremos a sua chegada não como seres envelhecidos, mas com a jovialidade de pessoas que acreditam e afirmam: "hoje é o primeiro dia do restante de nossas vidas!". Para vivê-lo intensamente, entendamos que melhor será para todos nós, a partir do que vivemos e de como gostaríamos de ser e viver, seguirmos a intuição do poeta: "ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais...".

Que o chão de 2011 guarde para sempre as pegadas dos peregrinos que souberem caminhar solidariamente com o tempo, à luz do Espírito, compondo a sua própria história e participando da construção da história de tantos.

Pe. Amauri Ferreira.


 
 

"Pe. Amauri! Lindo, maravilhoso texto. Dá até para fazer uma séria reflexão de nossas vidas. Como é bom ler coisas assim, qdo na verdade muitos se perdem com leituras que não levam a nada. Que bom refletirmos sobre essas suas palavras 'sorrir com esperança'. Que 2011 seja um ano marcado pela esperança e que o sorriso nunca deixe de existir em cada rostinho irmão. Que Deus continue lhe abençoando e iluminando com muita paz e saúde junto à nossa comunidade.Que juntos possamos cantar e cantar alto e cantar bonito: 'este ano, queremos paz em nossos corações.' Um grande abraço!" Sua amiga...Cleuza

"Muito obrigado por ter me dado a oportunidade de ler uma bela e verdadeira reflexão. Na vida nos deparamos com momentos difíceis, alegres, mas se segurarmos na mão de Deus poderemos ver um horizonte melhor" - Lucinha

 

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