Certa feita, os discípulos estavam
discutindo entre eles quem seria o maior (Mc 9,30-37). Jesus lhes disse: se
alguém quer ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a
todos! Tomando uma criança no colo afirma que quem acolher em seu nome uma
destas crianças, é a ele que estará acolhendo. E quem o acolher, está
acolhendo, não a ele, mas àquele que o enviou.
Estas palavras, lembradas no dia da
Bíblia nos evocam dois sentimentos. Primeiro, a Bíblia é um livro que serve a
todos; Segundo, a Bíblia é uma criança que quer colo.
A Bíblia serve a todos, porque ela é
um livro escrito por muitas mãos, de homens e mulheres, judeus e cristãos. É
história de Israel, povo escolhido por Deus para ser a sua presença de
santificação no meio de nós. Presença missionária, simples, que se tornou
visível, na aliança, terra e templo. E povo de Israel desta história, tantas
vezes cantada e decantada, não é o maior de todos os povos, mas o escolhido
dentre tantos outros. Ele é filho amado, que recebeu colo. Ganhou asas e quer
voar sempre, assim como os cristãos.
A Bíblia é uma criança que quer colo
sempre. Acolhê-la é acolher a revelação de Deus na história do ser humano.
Acolhê-la é fazer memória e ter Deus sempre presente no meio de nós. O Deus de
Abraão, Isaac, Sara, Rebeca, Madalena, Maria, etc. É compreender a história de
Jesus, Deus encarnado no meio de nós. Respeitando sempre os nossos irmãos
judeus, que não compreenderam assim a presença de Jesus, mas nem por menos
deixaram de acreditar que a Bíblia mesmo é já presença de Deus.
A Bíblia é a história de um Primeiro
e um Segundo Testamentos. Dizemos assim para ressaltar que a segunda parte da
Bíblia não é melhor que a primeira, mas continuidade, como os filhos, que
sempre querem colo e nunca são maiores que o outro.
A Bíblia gastou anos para ser
escrita. Antes, porém, ela foi vivida. São dois mil anos em 73 livros. É ainda
tem uma outra Bíblia, não sei se assim podemos dizer, aquela que foi
considerada apócrifa, não oficial ou inspirada. São 112 outros livros. A
escolha destes livros para entrar na Bíblia estabeleceu critérios de leitura de
um livro em várias comunidades, inspiração de Deus, opinião de lideranças de
comunidades judaicas e cristãs, pensamento que o livro reflete.
As pessoas sempre se perguntam: como
estudar a Bíblia? Outros afirmam, já li a Bíblia todo e não entendi muita
coisa. Ler a Bíblia como um livro não é o melhor caminho. A Bíblia é como uma
cidade desconhecida. Quando mudamos para ela, tudo parece estranho, gente,
ruas, lugares... Com a leitura e estudo constante, a Bíblia passa a ser a nossa
casa. O estudo da deve ser sempre crítico, ecumênico e pastoral. Para isso,
temos os grupos de reflexão, Cursos de Teologia, Faculdades, etc. Você pode ler
a Bíblia em sua casa, com a ajuda de um outro livro ou simplesmente meditando e
rezando a palavra escrita. Sempre sairá coisas novas e velhas do texto. E não
se esqueça, a Bíblia deve sempre ser lida em sintonia com a vida de hoje.
Devemos partir da nossa realidade e iluminá-la pela outra realidade, descrida
na Bíblia, perguntado pela experiência de Deus refletida naquele texto.
Neste ano em que as comunidades
refletiram no mês da Bíblia o livro do Eclesiastes, vale lembrar que este livro
resume o pensamento sobre a vida dos trabalhadores e comunidades do século III
antes de Cristo. Sob o domínio dos ptolomeus, herdeiros do império grego, o
povo de Israel sofria por causa de altos impostos, escravidão e trabalho duro.
Para manter a dominação, pregava-se que para além desta vida, havia uma outra
de ressuscitados. O sofrimento era justificado pela esperança de vida eterna.
O autor do livro de Eclesiastes vai
na contramão desta reflexão. Para ele ou ela, o que existe é o aqui e o agora.
Não posso viver pensando no depois, que não conheço. O livro começa e termina
dizendo que tudo é vaidade, coisa fugaz, vento que passa. O livro constata o
duro sofrimento do trabalhador que não pode usufruir do seu trabalho, e prega
duas coisas:
1. A felicidade do ser humano
consiste em comer desfrutar do seu próprio trabalho. O fruto do trabalho é para
ser gozado com alegria. Para que isto aconteça é preciso que o ser humano viva
em solidariedade. Um deve ajudar o outro e não explorá-lo. O trabalho só tem
sentido se for vivido deste modo.
2. A vida deve ser vivida com
intensidade. Há um tempo para tudo, nascer e morrer; plantar e colher; rir e
chorar. Para além de todos os ensinamentos da época que pregava a vida boa no
além e justificava a ruim no agora, Eclesiastes diz que a morte é certeira.
Todos sabemos que um dia iremos morrer, por isso devo viver com intensidade.
Para que quanto chegue os últimos dias de minha vida, eu possa morrer, pois
haverá chegado o meu tempo.
Tudo que vai além destes dois pontos
é pura vaidade para o livro do Eclesiastes. É o nada que não leva a nada. É
exploração, sofrimento sem fim.
Com o exemplo do livro do
Eclesiastes, percebemos que a Bíblia é iluminadora. Os nossos dias se parecem
ao do Eclesiastes. A exploração do povo continua. Todos buscamos sentido constantemente
um sentido para a nossa vida. E ai de quem não encontra sentido.
Pensando na ressurreição de Jesus o
livro do Eclesiastes parece ser contraditório com a fé bíblica do Segundo
Testamento. Veja como é importante estudar a Bíblia no seu contexto. Uma coisa
fica sendo uma coisa e outra coisa fica sendo outra coisa. E todas as coisas aí
reveladas são importantes, basta que não façamos uma maior que a outra e que
demos sempre colo para a Palavra de Deus de ontem e de hoje.
Frei Jacir de Freitas Faria, ofm
Franciscano, Sacerdote, Escritor, Pós Graduado em Ciências da Religião e Mestre em Ciências Bíblias -